Se eu falasse a língua dos homens

São quatro histórias distantes, interligadas por um fio narrativo de causa e conseqüência. Uma turista americana é atingida por uma bala no Marrocos, disparada por dois garotos que brincavam com a mira de um rifle. O acontecimento desencadeia reações em várias partes do mundo.

É este o tema de Babel, fita roteirizada por Guillermo Arriaga e dirigida por Alejandro Iñárritu, mexicanos também responsáveis por Amores Brutos e 21 gramas. O filme deveria tratar, segundo trailer, propaganda, sinopse e camuflagens em geral, de diversidades culturais e preconceitos. Ao invés disso, Guillermo constrói um tratado conservador do comportamento em sociedade. A base do discurso é "respeite a cultura alheia, mas siga os preceitos ditados por sua própria cultura". Em suma, transgressão é pecado.

Em uma das cenas, uma adolescente japonesa tenta seduzir o policial que investiga seu pai. Detalhe: ela é surda. O homem, ao invés de ser seduzido, dispara o discurso do "você é apenas uma menina, não posso ultrapassar esse limite".

O problema do roteiro de Babel é exatamente esse: não ultrapassa nenhum limite. Os personagens não seguem suas vontades, não mantêm um diálogo rico com o novo, com o outro, mas obedecem pura e simplesmente os preceitos que lhes são impostos. Ou seja, Babel é mais do mesmo, com camuflagem de inovação.

Por não aprofundar relações, pensamentos e sentimentos, por disperdiçar atuações brilhantes em papéis medíocres,  por abusar dos clichês e das reações previsíveis até o limite do suportável, por aderir à idéia de que, para manter a sociedade organizada, é necessário doutriná-la de acordo com tradições culturais, eu sou contra Babel.

Isto não quer dizer que Alejandro e Guillermo não mereçam toda admiração. Eles defendem seu discurso de maneira brilhante, em um filme muito bem construído. Eles fizeram o seu trabalho, e a Academia, no dia 25 de fevereiro, provavelmente vai fazer o dela. Por seu conservadorismo disfarçado, Babel é o mais forte candidato ao Oscar.



Escrito por Vanessa às 16h38
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Inocentes

Uma velha muito doente chega na casa da filha, anunciando que passará a morar lá, a contragosto do genro. Com diabetes, um pé amputado, e uma rabugice desgraçada, a velha começa seu discurso: "Se eu trabalhasse em um posto de gasolina, bastaria um cigarro, um mísero cigarro, pra mandar TUDO pelos ares!"

A velha não se importa com o presente, mas com o que seria dele se o passado fosse outro. A maior preocupação dos personagens de Inocência, espetáculo em cartaz no Espaço dos Satyros, transcende a realidade. Como é de característica dos grandes textos de teatro contemporâneos, o real é o que menos importa. Dea Loher coloca o cerne do drama mais além, nas possibilidades imprevisíveis que a vida joga pelo caminho. Os personagens de Dea são seres humanos atormentados, angustiados com a perspectiva da continuação da existência.

O que aconteceria se eu tivesse tido um filho com o meu marido? Ou se nós tivéssemos salvo a mulher afogada? O que seria de mim hoje se eu enxergasse? Ou se alguém já tivesse me chamado de mãe? Os personagens de Inocência passaram por acontecimentos pontuais, mas que representam uma angústia perene, que não falha, não dispersa, mas mantêm uma vigília aguda e constante.

A solução para toda essa angústia é o motor que move o Satyros. Os textos que o grupo resolve defender concordam em um ponto: viver é estar em um estado permanente de angústia e prazer. É ter que experimentar um turbilhão de sensações que, no fim, deságuam no medo, na insegurança, no nó na garganta. Ser Inocente é não ter consciência do estado da existência, não saber o que fazer contra a angústia, a culpa, o medo.

Do mesmo jeito que o presente é apenas uma das possibilidades, o futuro é mais uma escolha. O modo como cada um dos personagens conduz seu drama pessoal é o tom que torna Inocência ainda mais instigante - sem falar dos cenários exatos, das atuações (palmas para Ivam Cabral) inspiradas e da direção afinada. Não dá, é claro, para negar o tom pessimista da narrativa.

Em uma das cenas, um casal resolve pular de um prédio conhecido como arranha-céu dos suicidas. Enquanto caem, apesar da sensação de poder deixar tudo para trás, se tornam conscientes de sua maldição - talvez uma das mais cruéis e doces maldições da humanidade: a memória. Enquanto não puderem esquecer os males do passado, não alcançarão a liberdade. Para Dea Loher, a culpa faz da liberdade uma utopia.



Escrito por Vanessa às 21h45
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São eles

É elitista, é inútil e hiper-conservadora. Mas a premiação do Oscar ainda atrai a minha atenção. Eu quero saber se nomes como Kate Winslet, Jim Carey e Jhonny Depp serão coroados antes de Brad Pitt ou George Clooney. Se Almodóvar finalmente leva uma estatueta, ao invés do intragável Clint Eastwood.

Querendo ou não, a premiação de hoje decide quem receberá as maiores verbas e os melhores convites amanhã. Se você também faz cara de nojo quando ouve falar da famosa Academia de Arte e Ciências Cinematográficas, saiba que ela decide, sim, o que vai rolar nas telas do cinema no próximo ano. E não só no quesito blockbusters.

And the Oscar goes to...

Melhor Filme

Babel

Os Infiltrados
Cartas de Iwo Jima
Pequena Miss Sunshine
A Rainha

Melhor Atriz Coadjuvante

Adriana Barraza, por Babel
Cate Blanchett, por Babel
Rinko Kikuchi, por Babel
Toni Colete, por Pequena Miss Sunshine
Jennifer Hudson, por DreamGirls

Melhor Ator Coadjuvante

Alan Arkin, por Pequena Miss Sunshine
Jackie Earle Haley, por Pecados Íntimos
Djimon Hounsou, por Blood Diamond
Eddie Murphy, por DreamGirls
Mark Wahlberg, por Os Infiltrados

Melhor Diretor

Alejandro González Iñárritu, por Babel
Martin Scorsese, por Os Infiltrados
Clint Eastwood, por Cartas de Iwo Jima
Stephen Frears, por A Rainha
Paul Greengrass, por Vôo United 93

Melhor Ator

Leonardo DiCaprio, por Blood Diamond
Forest Whitaker, por O Último rei da Escócia
Peter O´Toole, por Vênus
Will Smith, por À procura da felicidade
Ryan Gosling, por Half Nelson

Melhor Atriz

Penélope Cruz, por Volver
Meryl Streep, por O Diabo Veste Prada
Kate Winslet, por Pecado Íntimo
Judi Dench, por Notes on a Scandal
Helen Mirren, por A Rainha

Melhor Filme Estrangeiro

O Labirinto de Fauno, de Guilherme del Toro (México)
After the Wedding, de Susanne Bier (Dinamarca)
Dias de Glória, de Rachid Bouchared (Argélia)
The lives of others, de Florian Henckel von Donnersmarck (Alemanha)
Water, de Deepa Mehta (Canadá)



Escrito por Vanessa às 22h24
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Pessimismo X Otimismo

Estamos todos tentando resolver esse problema que é estar vivo.



Escrito por Vanessa às 15h38
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Variedades

- Então, a gente tem que fazer perguntas para o quiz, que é dividido em várias categorias.

- Ahn, e quais são essas categorias?

- São 10. Tem ciências, TV, entretenimento, cinema, história, geografia, variedades...

- E o que seria "variedades"?

- Tudo aquilo que você não conseguir encaixar nas outras.

- ...



Escrito por Vanessa às 12h31
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Mais sobre cinema

Saiu a lista dos filmes que irão concorrer ao Oscar de filme estrangeiro (falta um mês). Cinema Aspirinas e Urubus não está nela. Agora, ganha um prêmio quem souber qual é o candidato oficial da redação deste humilde blog:

Alemanha, “The Lives of Others,” Florian Henckel von Donnersmarck

Argélia, “Days of Glory,” Rachid Bouchareb

Canadá, “Water,” Deepa Mehta

Dinamarca, “After the Wedding,” Susanne Bier

Espanha, “Volver,” Pedro Almodovar

França, “Avenue Montaigne,” Daniele Thompson

Holanda, “Black Book,” Paul Verhoeven

México, “Pan’s Labyrinth,” Guillermo del Toro

Suíça, “Vitus,” Fredi M. Murer



Escrito por Vanessa às 11h34
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Lições que você pode tirar do Globo de Ouro

1. Seja amigo dos caras, quem quer que sejam eles.

2. Se você quiser concorrer a melhor atriz de qualquer coisa, mate a Meryl Streep. Do contrário, você não tem nenhuma chance.

3. Existem algumas peças-chave por ali. Marque um cafezinho com Clint Eastwood, ele deve ter o contato de todos os poderosos. Só assim pra ganhar do Almodóvar e ainda deixar todo mundo com uma cara de "é, o cara é bom mesmo".

4. Nunca, nunca mesmo, use um penteado parecido com o do Tom Hanks. Ele teve a desculpa do Código Da Vinci. Você não vai ter nem a honra de ser humilhado no Saturday Night Live.

5. Poupe a minha já gasta beleza de frases como "This is so unexpected!" O caralho que você não esperava! Foi indicado por que, então?

6. Quer se divertir muito mais? Assista o tapete vermelho e veja como os maiores astros do cinema mundial não sabem nem sequer abrir a boca. Ria da cara deles. Ria de novo.

Confira a lista dos premiados!



Escrito por Vanessa às 13h56
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Mais Estranho que a Ficção - A vitória de Will Ferrel

Destino é um assunto cheio de contradições e opiniões divergentes. E cinema também. Quando os dois se misturam, muitas vezes drogas são lançadas nos circuitos cinematográficos, como Escrito nas Estrelas ou Forças do Destino, aquela porcaria intragável com o Ben Affleck e a Sandra Bullock.

É um pouco diferente em Mais Estranho que a Ficção, que estreou sexta-feira em todo o país. Harold Crick é um fiscal da Receita Federal. Ele acorda todos os dias no mesmo instante, escova cada um dos dentes 72 vezes (36 para cima e para baixo, e 36 para um lado e para o outro), e dá um nó simples na gravata, porque assim ele economiza 43 segundos da sua vida. Harold Crick é um homem sozinho. Em um certo dia, ele começa a ouvir uma voz narrando todos os seus passos. Isto porque Harold é o protagonista do novo livro de Karen Eifel, uma escritora famosa por matar todos os seus personagens principais no final da história.

No ponto de ônibus, Harold ouve: "Mal sabia ele que estava próxima a sua morte iminente". E é aí que começa a se desenvolver a premissa de Zach Helm, um jovem roteirista que, por escrever sobre o impossível, faz o filme tocar em um ponto fantástico: a literatura e a poesia que existem na vida de quem não sabe que vive. Harold não sabia que vivia. Com vontade de começar sua vida, ele vai em busca de um especialista em personagens, um professor de literatura interpretado por Dustin Hoffman. 

O filme, como andaram falando alguns críticos arrogantes por aí, não tem a pretensão de seguir o filão de fitas como Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças e Show de Truman. Zach Helm não quer ser Charlie Kauffman, mas lhe presta uma singela homenagem, começando a carreira com referências ao mestre, mas trilhando um caminho tão próprio quanto as nuances de seu roteiro melancólico.

No mais, este filme me fez acreditar que Will Ferrell ainda tem muito o que fazer por aí. Ferrel vem de lixos desprezíveis como A Feiticeira (respeito menos Nicole Kidman por aquele filme), a interpretação sem sal em Os Produtores, e a sua carreira memorável, mas extremamente repetitiva, em Saturday Night Live. Em Mais estranho que a Ficção, no entanto, ele me convenceu de que evolui, e de que está aprendendo a cada trabalho. Quem sabe um dia ele me mostre mais trabalhos como este, sem os chiliques estranhos e afetações ridículas que o perseguem em cada personagem. Sem gritar exageradamente os adjetivos, como ele costuma fazer.

Um último destaque para a interpretação brilhante de Dustin Hoffman e Ema Thompson. Ótimo para um próximo final de semana.



Escrito por Vanessa às 21h47
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Cigarros: 2 Doses Alcóolicas: 4

Depois de uma semana louca, atarefada, e totalmente desanimadora, eu tenho o direito (me dê licença, por favor) de dar uma de Bridget Jones.

De moletom velho, copo de vinho na mão, cigarro na outra, vou, libertadoramente desafinada, gritar All By Myself! Don't wanna be! All By Myself! Anymoooooore!

Espero que no final de tudo isso, eu também tenha a minha seqüência Ain't No Mountain High Enough. Adoraria gritar Marvin Gaye.

Claro que eu não sou tão graciosa quanto ela.



Escrito por Vanessa às 00h04
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Nota musical

Eu poderia ouvir e ouvir e ouvir Cake por horas e horas. Estranhamente, a única banda que já havia provocado esse efeito em mim foi Beatles. Será que estou cometendo uma heresia?

Escrito por Vanessa às 23h06
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Teatralizando - recomendações da redação do Vida En-Cena

1. Em cartaz agora em janeiro, O Avarento, direção de Felipe Hirsh e atuação de Paulo Autran. Não deixem de ver a união de um dos maiores diretores brasileiros da atualidade com o ator número 1 do país. E vem mais Felipe por aí...

2. No meio do ano, a Sutil Companhia de Teatro estréia a peça A Educação Sentimental do Vampiro que, como todas as produções do grupo, promete muito. Adaptado do livro homônino de Dalton Trevisan, o espetáculo será montado no  Teatro Popular do SESI, velho conhecido do grupo.

3. Mais Sutil em 2007. Neste ano, a Companhia completa 15 anos de palco e presenteia o público paulista com um festival. Em julho, serão reapresentados, no mesmo palco da Fiesp, espetáculos memoráveis como A Vida é Cheia de Som e Fúria, Avenida Dropsie e Nostalgia.

4. Reestréia depois de amanhã, dia 9, no Cultura Artística, o espetáculo que rendeu a Fernandinha Torres o Prêmio Shell de Melhor Atriz em 2004. Adaptação para o palco do livro de João Ubaldo Ribeiro, o monólogo A Casa dos Budas Ditosos conta a história de uma senhora de 68 anos que desvenda, uma a uma, todas as suas picantes aventuras sexuais.

5. Por volta de maio ou junho, estréia também o musical My Fair Lady, com atuação de Daniel Boaventura, o infeliz que estragou Chigago (ok, Danielle Winits teve uma boa dose de responsabilidade naquela merda). Vale a pena estar na platéia para conferir o que fizeram com a história de Bernard Shaw que Audrey Hepburn contou em 1964, como a inesquecível Eliza Dolittle.

6. Outro musical que também virá ao Brasil em 2007 se chama Os Produtores. Dirigido por Mel Brooks na primeria versão (1967), foi remontado pelos maravilhosos Nathan Lane e Matthew Broderick no ano passado. A péssima notícia: Danielle Winits (de novo, a infeliz) foi convidada para estragar o papel que foi de Uma Thurman no cinema.



Escrito por Vanessa às 15h26
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Largada

Pra quem cobre televisão, não há maior insanidade no mundo do que o Big Brother Brasil. Sim, aquele reality show bizarro apresentado pelo palhaço do Pedro Bial. Mas calma, minha gente, milhões de pessoas acham graça no programa, portanto, eu também acho. Sacaram a idéia?

A parte ruim do jornalismo é ter que correr atrás da notícia e dar destaque sempre pra aquilo que todo mundo quer ouvir. Portanto, foi dada a largada. Na terça-feira que vem começa o BBB7, com paredões, líderes, anjos e muita, mas muita audiência.

Afinal de contas, o que pode ser melhor para nos fazer esquecer das mazelas da nossa vida do que as mazelas da vida dos outros? É o mesmo princípio da literatura de ficção, do cinema, do teatro. A diferença é que estes usam ferramentas um pouco mais rebuscadas para te fazer escapar do seu mundo. Todos precisam de uma válvula de escape.

Pra você pode ser Nelson Rodrigues, pra audiência é Grazielli Massafera.

Escrito por Vanessa às 11h58
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Loucuras de ano novo

Essa é a Bruna. A peruca, claro. Sim, a peruca tem nome. Ela é Bruna porque é rosa.



Escrito por Vanessa às 19h25
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BRASIL, Sudeste, SAO PAULO, JARDIM LONDRINA, Mulher, de 20 a 25 anos, Portuguese, English, Arte e cultura, Livros
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