A Questão do Desarmamento no Brasil
A questão do desarmamento da sociedade brasileira teve que ser levantada devido à urgência com que têm sido necessário tratar o combate à violência. É lamentável que essa idéia tenha que ser discutida. Para que a proibição de armas ilegais chegue à pauta de um círculo social, a situação deve estar em um estado alarmante tal que, mesmo os que não vivem à margem deste círculo necessitem de armas de fogo para preservar sua integridade física e moral.
Em uma sociedade organizada, é inadmissível que a violência tenha que ser tratada com mais violência. Esse comportamento reduz a condição humana à barbárie, destituindo a sociedade de seu próprio significado, e desestruturando os conceitos nos quais são erguidos seus alicerces.
A sociedade, por definição, trata-se de um grupo de pessoas organizadas de modo a garantir a preservação de alguns interesses comuns, tais como a sobrevivência, a ajuda mútua e o desenvolvimento físico, psicológico e cultural de cada indivíduo, enfim, o bem estar comum. Sem o estabelecimento claro desse objetivo, a sociedade perde sua capacidade de se manter coesa.
Conforme a concepção de capital e o modelo econômico adotados, esse mesmo núcleo social passa a ser composto por novos núcleos, com interesses diferentes entre si. Logo surge a já conhecida luta de classes, onde a concentração de riquezas provoca o preconceito baseado na ignorância e na insensibilidade daqueles que se julgam detentores de toda a razão.
No Brasil, o modelo de colonização promoveu, desde os primórdios da sociedade brasileira, uma considerável injustiça social, o que resultou na distorção de seu desenvolvimento. Os ricos, cada vez mais, têm seu caminho rumo ao progresso facilitado pelo governo, enquanto a massa continua retida na estagnação social e na falta de perspectivas.
Assim, atualmente, os fatores históricos somados ao rumo que o país deu aos próprios problemas produziu uma delimitação social onde obteve o direito de ser incluído somente aquele que pôde pagar por essa proteção. Os demais foram resignados à margem desse círculo social.
Logo, a violência dos excluídos pode ser interpretada como resposta à essa resignação, já que a luta armada é o único meio de reivindicação que essa massa teve a oportunidade de conhecer. Esse violento comportamento tem raízes muito mais profundas do que os recorrentes projetos governamentais na área de segurança parecem teorizar.
A sociedade incluída nos limites sociais, por sua vez, se armou como forma de defesa, supondo que essa seja a melhor maneira de assegurar sua integridade física e moral diante de uma ameaça grande demais para ser enfrentada por indivíduos comuns, sem a participação do governo.
Porém, a partir do momento em que a violência se populariza, tanto como forma de defesa quanto de ataque, a sociedade passa a compor-se de inimigos, generalizando um conflito que não pode mais ser detido com a proibição de armas ilegais. As razões do conflito permaneceriam e os que dele participam certamente buscariam um novo jeito de combater.
Deve-se, portanto, atacar as causas do problema. Desarmar a sociedade brasileira é, antes de mais nada, desarmar os mecanismos que acentuam a luta de classes, combater o que fez com que a massa fosse condenada à total exclusão. Em linhas gerais, a proibição de armas ilegais deveria ser antecedida pela melhoria das condições de vida da maioria.
No entanto, algumas medidas de segurança se fazem necessárias em qualquer sociedade organizada, independente da realização de programas sociais que promovam a qualidade de vida na periferia, focando pontos básicos da sobrevivência e da dignidade humana, tais como alimentação, saúde, moradia e sustento.
Entre essas medidas essenciais estão providências como o treinamento obrigatório e adequado da parcela da população interessada em adquirir legalmente uma arma de fogo, a capacitação de uma força policial qualificada para exercer sua função na sociedade, e a fiscalização severa das alfândegas, visando impedir o tráfico de armamentos ilegais.
Armar uma sociedade para tentar estabelecer a convivência pacífica é o mesmo que forçar essa convivência. Uma vez que, devido à necessidades ligadas a auto-preservação, o brasileiro optou pela violência para combater sua própria ameaça, o desarmamento torna-se imprescindível para que essa onda de conflitos não se alastre além do limite do controle.
Enquanto a legislação brasileira ainda primar pelo desarmamento em seu conceito prático e material, o verdadeiro problema não terá solução, já que nada acontecerá a suas raízes. O desarmamento é ,sim um problema de ordem social e deve ser tratado com a seriedade e o planejamento adequado que a sociedade costuma exigir.
Escrito por Vanessa às 21h54
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