Sem palavras

O ponto máximo de qualquer situação se encontra quando não se tem palavras para se descrever o que está bem na sua frente. Isso não quer dizer que esteja tão ruim assim. Eu, por exemplo, não tenho palavras pra descrever a injustiça miserável e aterradora pela qual milhares de pessoas em todo o mundo passam sem ter o que fazer. Não tenho palavras pra descrever o que sinto por pessoas que desprezam o relacionamento homossexual, apesar de saber que o mais sublime dos amores não tem lugar pra aparecer.

Mas também não tenho palavras pra descrever a sensação que é estar em cima de um palco. Não sei o que dizer quando me deparo com o som das pessoas entrando na platéia, escolhendo o melhor lugar, esperando pelo que vem a seguir, tudo isso enchendo meus olhos de lágrimas atrás das cortinas.

Tudo o que eu digo aqui é um puro ensaio da vida. Uma tentativa de tentar compreender melhor meus sentimentos diante de sua grandeza e uma forma de me humilhar perante a sua magnitude. E é em função dessa tal magnitude que me revolto diante de atitudes que visam exterminar o direito que certas pessoas privilegiadas têm de viver. Direito esse que eu, como cidadã provida de enorme paixão pela escrita, defendo com toda a garra, com as armas que tenho, para honrar o fato de ser uma dessas privilegiadas. 

O mundo que eu vivo é cercado de situações que me deixam meio estagnada, sem ter o que responder. Um homem que julga ter o poder nas mãos e mata milhares de pessoas, distroe famílias inteiras por um motivo inventado me deixa completamente sem palavras.

O que me faz buscar essas palavras e juntá-las de modo que formem um protesto e uma celebração à vida é a certeza de que não sou só eu que me indigno perante as coisas e que procuro por armas para essa luta. A arte é minha arma. Escrever e atuar são manifestações artísticas em sua mais pura forma, e a arte nada mais é do que um instrumento transformador da sociedade. Enquanto eu ainda achar que domino as técnicas necessárias, vou passar muito tempo celebrando aquilo que amo e lutando pelo direito que todos tem de olhar para suas próprias vidas e encontrarem um motivo para celebrar. Ainda falta muito para que eu fique sem palavras diante disso.



Escrito por Vanessa às 17h36
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Povo brasileiro

Orgulho de ser brasileiro. Slogan interessante, até. Interessante porque não existe orgulho nenhum nisso. Orgulho existe em morar num país onde a vida é dura e a batalha ininterrupta, mas a festa é contínua e a animação nunca perde o fôlego.Mas o estado atual do país e fama desse lá fora, não deixa os tupiniquins em estado de orgulho.

Não é história pra boi dormir esse negócio de que o país tem potencial. O potencial até existe, o problema é o que fazemos com ele. Em que outro país do mundo, um Estado subdesenvolvido, sem qualquer tipo de política incentivadora dos esportes, existiria uma delegação olímpica com tantos atletas competentes e determinados?

A determinação e a coragem desse povo é que me impressionam. O otismo também não anda mal. O mundo, em um estado de pressão absoluta, se nega a reconhcer o Brasil como um país digno de crédito, a não ser pelo brasileiro, que continua acreditando cegamente que somos o "país do futuro", o que não pode ser totalmente descartado.

Somos tão evoluídos que criamos um sistema econômico que não falha: nunca podemos piorar, já que o dinheiro público só vem dos que são contabilizados na linha dos pobres.A saúde também não é das piores. O paciente leva apenas alguns meses para conseguir uma consulta, e mais alguns outros para os remédios. Há quem diga que poderia ser pior.

O único aspecto meio duvidoso do país é ter pobre demais, e geralmente estão todos insatisfeitos. Reclamam sem ter do que. O país cuida dos pobres com carinho. Afinal, o que seríamos de nós se não fossem eles? Que Dirceu e Palocci se sintam abençoados por essa quantidade. São os pobres os únicos a pagar impostos e a não saber o porque. A ignorância é realmente uma benção. E ainda não consegui entender aquela história do orgulho...

 



Escrito por Vanessa às 20h37
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Talento

As palavras não são tão fáceis quanto eu imaginava que fossem. Elas me fazem bem, me ajudam a superar obstáculos, me estimulam, mexem com meus sentimentos mais profundos, talvez por isso sejam tão complexas. Por mais ricas que possam ser, nunca consegui traduzir por completo um sentimento fazendo uso apenas delas.

Talvez hoje seja o dia de enfrentá-las de uma vez por todas e não sofrer mais só com a sua presença. Não sei se você, leitor interessado, consegue compreender o que eu digo. Por mais que um sentimento seja seu companheiro de longa data, que sua presença já tenha virado um acaso cotidiano, nunca se pode ignorá-lo quando se fala dele. As palavras ferem muito mais do que a consciência pode jamais sonhar.

Pra mim, existem coisas que estão incomodando agora, mas não sei se ouso falar delas. A mais aguda dessas dores provêm do autoconhecimento, o qual, aliás não recomendo pra ninguém. A não ser que o leitor seja perfeitamente isento de falhas, se autoconhecer só leva a constatação de um fato: temos limites. Os meus limites doem demais. Como boa geminiana, não busco a perfeição porque a considero como uma obrigação, algo indispensável.

A pior conclusão é lembrar que isso não pode ser verdade, que eu preciso dos meus limites. E pior ainda quando palavras fazem isso. Elas doem, e muito. Não sei a verdadeira razão pra tudo estar acontecendo, mas sei que minhas certezas agoras são incertas, meus medos aumentaram e meu mundo vive em constante ameaça.

Aqueles que me conhecem sabem o quanto eu posso fingir sentimentos em cima de um palco, só não sabem o quanto isso me apavora e o quanto esse talento é importante pra mim, o quanto eu temo que ele se desfaça como uma nuvem em dias quentes.

Uma vez, há muitos anos, no final de um longo dia de ensaios, pouco antes de abrir a cortina, minhas mãos tremiam, eu suava, e ansiava pela primeira vez sob os holofotes de um palco. O medo era tanto que o pensamento de desistência rondava minha mente há algumas horas. Nesse instante, uma amiga sussurou simples palavras perto de mim que me fizeram flutuar: "O show agora é seu, não adianta fugir ou exitar. Você foi feita pro palco e ele foi feito pra te fazer feliz." Nunca mais abandonei nada. Saí chorando do palco naquele dia. Nunca mais vou me esquecer...

 



Escrito por Vanessa às 18h04
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